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Cultura

O vendedor de banana frita

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O vendedor de banana frita

Seu Antenor estava bastante cansado naquela manhã de domingo, cansado e sentindo-se derrotado, pois sempre se esforçou para ser o mantenedor de sua família e dar o mínimo de dignidade aos seus, porém a vida não lhe fora gentil e ele, já em idade avançada precisa trabalhar de domingo a domingo a fim de ganhar uns poucos trocados  para poder garantir as despesas da casa.

Viera ainda jovem tentar a sorte na capital, era de uma das muitas comunidades do município de Fonte boa, no alto Solimões. Com nostalgia lembrava dos igapós e da pesca do Pirarucu, na floresta sentia-se vivo e senhor do seu caminho, na cidade sentia-se tolhido e infeliz.

Pegou seu material e seguia para a sua banquinha no centro comercial da cidade onde vendia bananas fritas, uma tradição na cidade de Manaus. Pegou a linha 560 na estação e ia pensando na vida enquanto esperava a chegada ao seu destino.

Lembrou de quando conheceu sua esposa, uma morena cor de jambo, bonita e jeitosa, estavam na festa de seu Olavo, um rico regatão que anualmente convidava a todos da região para comemorar o aniversário. Encantou-se assim que a viu e logo soube que a queria como companheira para o resto da vida. 

Recordou do casório, do nascimento dos filhos e das dificuldades que a vida lhe impunha. Por alguns momentos não conseguia pensar em mais nada, nem pra frente, nem pra trás e nem no presente, simplesmente olhava pela janela do coletivo sem ver nada.

De repente uma discussão qualquer entre o cobrador e um passageiro do coletivo, provavelmente por questão de troco, rompe o transe de seu Antenor que passa a observar a contenda. 

Após uma troca de insultos a discussão cessa e aos poucos a normalidade reina no ônibus. Seu Antenor ainda comenta com o passageiro que está sentado ao seu lado sobre a briga, mas este lhe responde com um sorriso amarelo e não estica conversa.

Uma vez mais seu Antenor fica triste, mas pega o seu celular e começa a ver as fotos dos netos, um momento de alento para alguém tão calejado pela vida. Sorri ao ver o mais novo que chama de Zezim, pelo menos os pequenos ainda lhe proporcionam alguma alegria.

Com a viagem longa e alma desanimada seu Antenor ainda dá um cochilo acordando bem próximo ao seu ponto, arruma a sacola com as bananas, endireita o boné e levanta para descer do coletivo.

Mais um dia dos muitos que seu Antenor vive para trabalhar, para superar as dificuldades e as limitações de sua condição, porém lembra de sua morena, de seus netos, abre um sorriso e grita: olha a banana, um real, somente um real, olha a banana quem vai querer?

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Cultura

Ele dirigiu a noite toda

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Perto das cinco da manhã e ele está quase chegando ao seu destino, no som de seu carro nada mais adequado, I drove all night, Cindy Lauper.

I had to escape, the city was sticky and cruel
Maybe I should have called you first
But I was dying to get to you

Exatamente como se sentia, angustiado e louco de saudades de sua namorada. Desde que ele entrou para a federal eles se viam somente aos finais de semana e isso o deixava sem energia, sem foco e até desolado.

Contudo sabia que deveria esforçar-se, pois isso fazia parte do plano dos dois. Dessa vez ela não conseguira entrar na Universidade, mas tentaria no ano seguinte.

Estava na casa de um colega de curso preparando uma apresentação (cursava Psicologia) para ser defendida na aula seguinte, seu amigo ainda insistiu para que ele pernoitasse em sua casa, pois já passava da meia noite, mas ele disse que não e saiu.

Já havia feito aquele caminho diversas vezes, antes mesmo de vir estudar na capital quando vinha a procura de diversão e aventuras. Sempre acompanhado de seu primo, o irmão que nunca teve, “barbarizavam” aonde passavam e tudo era alegria e curtição.

Viu o shopping center onde conheceu sua namorada, estava com o primo a se exibir e chamou a atenção da moça que somente ria de suas infantilidades, mas foi o suficiente para se aproximarem e após descobrirem que moravam na mesma cidade foi o ingrediente que os uniu.

Agora mais próximo do seu destino vê um carro no acostamento com o alerta ligado, passa por ele, mas em um ato altruísta reduz a velocidade e retorna para ver o que se passa.

É uma mulher e está um pouco assustada com a sua aproximação, ao chegar perto pergunta se está tudo bem e ela responde que o carro parou de funcionar e não sabe o que fazer.

– Posso dar uma olhada se você concordar.

– Claro que sim. Não sei o que fazer mesmo.

Ele manobra o carro e o coloca de frente ao da mulher e usa os faróis com fonte de iluminação. Abre o capô e faz uma inspeção visual rápida para tentar descobrir a fonte do problema. Pede para a moça dar a partida… Nada, nem a luz acende. Então chega a conclusão que é bateria, mas claro que é um chute, pois ele não entende nada de mecânica, quis somente dar a impressão que sabia o que fazia.

– Moça creio que não vai ter jeito, precisamos procurar um mecânico.

– O seu celular está com sinal? Pois o meu não funciona.

– Não, nessa área não tem sinal. Se você quiser posso lhe dar uma carona até a cidade mais próxima, creio que daqui a uns 12, 15 km tem uma e de lá você pode pedir ajuda.

– E o meu carro? Não posso deixá-lo aqui. Relutou ela.

– Bom, quanto a isso não há o que fazer, você terá que deixá-lo aí, ou…

– Ficar aqui mesmo, entendo. Então vamos. Ela apressa-se em responder.

Eles entram no carro e seguem viagem. Ele tenta algum diálogo, mas ela usa apenas repostas curtas e evasivas, então desiste e concentra-se na estrada.

Do nada ela pergunta o que ele faz da vida.

– Sou estudante e faço alguns serviços esporádicos pra compor meu orçamento, a maioria da minha renda vem de meus pais, mas assim que formar vou trabalhar e espero ter um bom rendimento.

– Você faz Psicologia, isso?

– Como sabe?

– Vi livros sobre o assunto no banco de trás.

– Hum… e você o que faz por esses lados?

– Vim visitar uma amiga que mora em um ramal próximo e então meu carro quebrou.

– Hum…

Por alguns instantes um silêncio constrangedor envolve o ambiente.

– E sua namorada? Me fale um pouco dela.

– E quem disse que tenho namorada?

– Você tem cara de quem está apaixonado.

– Eu estou é cansado, mas sim eu tenho uma namorada e sim estou apaixonado.

– Eu a invejo. Nunca tive sorte com os homens, sempre acabo machucada. Um dia quem sabe eu encontre um rapaz bonito, charmoso e educado como você?

– Vai sim. Responde sem graça.

– Posso lhe pedir um favor? Só não me julgue, tá bem?

– Claro moça, responde meio sem saber o que esperar.

– Eu sou sensitiva e acredito que hoje será meu último dia de vida… não me tome como louca, sempre fui assim desde criança, sabia sempre onde as crianças se escondiam no esconde-esconde, previ com exatidão a passagem de meus pais, além de inúmeras previsões certeiras. Tenho certeza que hoje eu irei partir.

Ele fica sem saber o que dizer e um arrepio lhe percorre o corpo todo.

– Moça, não faz isso. Logo chegaremos e aí você pode procurar ajuda para consertar o seu carro. Você está nervosa, temerosa e desorientada. Ninguém vai morrer hoje.

– Veja já estamos chegando à cidade de que lhe falei, fique calma.

Ela dá um leve sorriso, quase como agradecendo, arruma o cabelo, dá um suspiro e diz.

– Você tem razão, deve ser essa situação toda, meus medos estão a me dominar.

– Claro moça, fique calma que logo isso passa e em breve será apenas uma lembrança de uma situação ruim.

– Tá certo, mas posso pedir o meu favor?

– Sim, não vejo porquê não.

– Você pode parar no acostamento?

– Não moça, não faz isso. Eu só quero chegar ao meu destino.

– Será rápido, eu preciso…

Relutante e temeroso ele concorda em parar.

– Pronto paramos e agora?

Ela se aproxima, olha em seus olhos, acaricia seu rosto, beija levemente sua boca e o abraça forte. Ele ficou bem surpreso e sem entender nada, mas em seu íntimo gosta, sente-se lisonjeado e vivo. A envolve em seus braços e ficam assim por algum tempo.

Ela afasta-se, enxuga uma lágrima que escorre por seu rosto se desculpa e agradece ao mesmo tempo.

– Desculpe, mas eu precisava sentir pelo menos uma vez na vida o abraço de uma pessoa amável e sincera. Não fale nada a sua namorada, isso não significa nada pra você foi só uma maluca que cruzou o seu caminho.

– É melhor irmos moça.

Ela concorda e ele retoma à estrada… ela com a cabeça recostada no banco do carro, olhando para o nada e ele com pensamentos desconexos olhando para frente. Novamente o rádio resolve falar por si e lembrá-lo porque ele está ali.

Longe de casa
A mais de uma semana
Milhas e milhas distante
Do meu amor

Sente um alívio e fica feliz, uma vez que logo estará em seu porto seguro. Após alguns minutos a cidade aparece e ele sente-se leve por finalmente deixar a moça estranha em um local seguro e poder seguir viagem.

Já é quase 6h e ele a deixa na rodoviária da cidade, ainda pergunta se ela precisa de algo mais, mas ela diz que não e uma vez mais agradece pela gentileza e presteza por parte dele.

Segue então para a casa de sua amada, cheio de saudades e desejos. Pretende lhe fazer uma surpresa e para o carro a uma quadra da casa dela, abaixa-se para pegar sua carteira que está no assoalho do veículo e ao levantar a vê sair de casa abraçada a um homem. Não pode acreditar no que vê, mas como assim?, Isso não está acontecendo, eu estou por demais cansado e deve ser uma alucinação, pensa ele.

Esfrega os olhos como para poder ver melhor e depara-se com a realidade. Ela dá um longo beijo de despedida no homem, este apalpa-lhe a bunda e sai com um sorriso nos lábios enquanto ela o olha de forma lânguida.

A decepção é indescritível, a sensação de desgosto e ira ao que presencia o faz urrar de dor… “Nãããooooooo!”. Que fdp, vadia, sem vergonha… Brada ele.

Tenta se recompor, pensa em ir lá tomar satisfação, mas pondera e resolve não ir porque pode fazer uma besteira, além de corno, assassino, isso não.

Rapidamente decide que vai sumir da vida dela sem dar satisfações, afinal ela não merece nenhuma satisfação. Manobra o carro e toma o caminho de volta. Racionaliza e decide passar o dia num hotel ou pousada em outra cidade para descansar, esfriar a cabeça, retornar à capital e depois decidir o que fazer.

A cidade mais próxima é a mesma em que ele deixou a mulher estranha, lembra de uma pousada que tempos atrás passou um fim de semana por lá e pra lá decide ir.

Ainda muito transtornado vai pensando onde teria errado, sempre fora fiel, companheiro, parceiro e não merecia isso.

A imagem do beijo prolongado não lhe sai da cabeça, mas que desgraçada, pensa ele.

Está tomado pela raiva e dirige de forma agressiva, perigosa, muito diferente do que costuma conduzir.

– Mas que merda! Eu sou um otário mesmo. Jamais deveria ter confiado nela. Todo esse tempo e eu sendo traído, sou muito trouxa! Devia voltar lá e dar uma sova nela, isso sim. Que babaca eu sou!

E enquanto dirige vai se maldizendo, espraguejando a namorada e nem percebe que já está no limite da cidade onde vai descansar.

De uma vicinal sai um carro e por estar em alta velocidade precisa desviar para não bater e faz isso com uma manobra evasiva, porém perde o controle do veículo, atravessa a pista contrária e acaba invadindo uma oficina mecânica do outro lado da rua.

Após alguns instantes, atordoado e ferido na cabeça recupera a consciência. Sai do carro e vai ver onde ou em que batera. Há uma mulher caída no canto da oficina toda ensanguentada e inconsciente.

Corre para a rua e pede socorro, há uma pessoa ferida, diz ele. Pede para chamarem a ambulância, bombeiro, defesa civil seja quem fosse. Retorna e vai ver como a mulher está.

Aproxima-se e a reconhece, é a mulher que ele dera carona horas antes. Chega ao seu lado e pergunta se está tudo bem, ela não responde. Ele a balança tentando reanimá-la ela abre os olhos e lhe diz.

– Ela não merece você e eu tinha razão hoje é mesmo o meu dia de partir…

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Cultura

Dez anos depois

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Tem coisas que você faz na vida já sabendo o resultado, mas assim mesmo faz.

Um amigo meu, faz muito tempo, teve uma namorada da qual ele gostou por demais a ponto de adoecer quando terminaram, ou melhor quando o destino os separou.

Já fora bem complicado de eles começarem a namorar, pois no começo ela não tinha interesse algum por ele, olhava-o apenas como um colega e depois como amigo, ele se encontrava na famosa friend zone.

Após alguns meses finalmente algo aconteceu e eles acabaram por ficar juntos, um namoro meio secreto, velado, sem muita exposição, quase às escondidas, mas ele estava feliz e eu como seu amigo também fiquei feliz por ele.

Crescemos juntos, uma amizade desde os 5, 6 anos de idade. Fizemos todos os tipos de diabruras que se possa imaginar, posso dizer que tivemos uma infância feliz e saudável.

Quando crescemos seguimos profissões e rumos diferentes, mas agora as “diabruras” eram noitadas, bares, bebida, mulheres e outras aventuras típicas dessa idade onde não se tem um pingo de responsabilidade.

A partir do momento que ele passou a “namorar” a Gabriela nos afastamos um pouco, mas isso é sempre normal afinal ele estava “amando”…

Nossas noitadas diminuíram, mas com alguma frequência ainda saíamos juntos só que agora era papo-cabeça, falávamos de futuro, de sermos responsáveis e claro falávamos da Gabriela. Eu solteiro por opção e com muito orgulho só escutava e ria, ria muito. Você é gado, dominado, dizia pra ele.

Um dia ele me ligou e disse que precisava conversar comigo, ainda tirei um sarro perguntando qual o nome da criatura, mas ele disse que era sério, respeitei.

Nos encontramos e ele me contou que Gabriela precisaria se mudar para São Paulo e ele não sabia o que fazer porque ela era a mulher da vida dele, que não podia viver sem ela e também falou muitas outras besteiras e blasfêmias, dessas que proferimos sempre que estamos apaixonados e prestes a perder o nosso amor.

Disse pra ele ter calma, pois ele só tinha 23 anos e estava apenas começando a viver. Então pedi pra ele me explicar melhor a situação e ele começou a falar.

Contou-me que ela estava frustrada com a vida, pois não conseguia emprego, ainda não havia se recuperado de uma paixão antiga e não tinha certeza de seus sentimentos em relação a ele, Miguel, o meu amigo.

Na verdade ela estava fugindo de sua realidade que naquele momento não era das melhores. Porém independente dos motivos dela meu amigo estava arrasado com a situação e não tinha condições financeiras de ir com ela e nem ela queria que ele fosse.

O que eu poderia fazer nessa situação? Apenas ouvi e lhe dei meu apoio.

Os dias passaram e ele foi tentando se acostumar com a ideia, mas não só isso, também tentava aproveitar ao máximo o tempo que ainda lhe restava com ela.

Eu na época, no alto dos meus 24 anos tinha outras coisas mais importantes a fazer: baladas, mulheres, bebidas, curtição, mas mesmo assim sempre arrumava um tempo para o Miguel, afinal é pra isso que servem os amigos.

Pelo menos apoio moral ele sempre teve.

Finalmente chegou o dia da partida de Gabriela. Ele a levou ao aeroporto, se despediu e voltou para casa devastado. Eu não fui porque se ele chorasse eu iria tirar sarro dele o resto da vida, então resolvi ficar e poupar meu amigo de tal vergonha, mas ele me disse que não chorou, embora tivesse vontade.

Eu cá tenho minhas dúvidas, mas vou acreditar na palavra dele, os amigos também servem pra isso, dar apoio e crédito aos fatos narrados pelos camaradas.

Nos meses seguintes ele estava um porre, sempre cabisbaixo e triste, mas uma coisa eu tenho que admitir: ele levou a vida sem reclamar, mas não era mais o amigo de outros tempos. Ficou mais concentrado no trabalho e quando não estava trabalhando estava na esbórnia, naturalmente era uma fuga para amenizar a tristeza e angústia que sentia, eram outros tempos.

O tempo foi passando, a dor cicatrizando, as loucuras diminuíram, deixou de ser workaholic e até arrumou uma namorada, as coisas finalmente começaram a se aprumar.

Uns três anos após a partida de Gabriela ela retorna a Manaus e resolveu visitar Miguel, contudo nesse meio tempo muito coisa havia acontecido. A mãe de Miguel falecera e como não tinha mais pai ele e os irmãos resolveram vender a casa e cada um seguiria o próprio destino.

Ela lhe quis fazer uma surpresa e apareceu sem avisar, até porque ele não atendia aos seus telefonemas, mas encontrou outra família morando no local e eles não sabiam informar o paradeiro de Miguel. Ainda perguntou na vizinhança, mas em vão.

Nesse momento ela me procurou, pois ainda morava no mesmo local e Gabriela sabia onde eu morava. Coloquei ela a par de como Miguel estava, da perda da mãe, dos momentos ruins que vivera e que estava, de certa forma, assimilando bem todas as atribulações.

Ela me pediu o endereço e o telefone de Miguel, pois sabia que eu os teria, mas disse que perguntaria a ele se poderia informar, uma vez que ele não queria mais contato com ela. Gabriela assentiu.

Como era de se esperar Miguel não permitiu que eu passasse as informações, então ficou o dito pelo não dito e a vida seguiu.

Uns dois anos depois nos encontramos no aniversário de um amigo comum. Miguel estava alegre, falante e parecia bem feliz. Conversamos bastante, ele havia terminado a faculdade, era engenheiro agora e trabalhava numa multinacional, ganhava bem e estava noivo.

Fiquei bem feliz e embora as circunstâncias da vida nos tenha afastado ele é uma pessoa que eu tenho muito apreço, admiração e carinho.

Nesse dia ele me contou uma coisa bem interessante e de uma certa maneira mostrava o desespero que ele vivera na época do término de seu relacionamento com a Gabriela.

O último encontro que tiveram foi na praça de São Sebastião e eles, os dois, combinaram de se encontrarem naquele mesmo local dez anos depois, independente de onde estivessem e de que estivessem fazendo.

Dez anos depois, 15 de fevereiro, às 15h:15min, pois era a hora que o relógio da igreja de São Sebastião marcava. Fiquei perplexo com o 15, mas ele disse que fora isso mesmo uma grande e inexplicável coincidência.

Mas isso mostrava que apesar de tudo ele não a esquecera. Disse pra ele esquecer dela e tocar a vida que pelo visto estava sendo boa para ele.

Após se passarem os ditos dez anos, lá estava Miguel na praça de São Sebastião, como quem joga na loteria, sabe que não vai ganhar, mas mesmo assim vai conferir a aposta.

Aproximei-me e o cumprimentei, ele ficou surpreso com minha presença e perguntou o que eu fazia ali.

Antes de eu esboçar qualquer resposta ele me fez lembrar a conversa que tivemos sobre o encontro com Gabriela naquele mesmo local, dez anos após a última vez que os dois se encontraram.

– Lembro sim, Gabriela me confirmou a história e eu estou aqui como seu (dela) representante, Gabriela é minha esposa agora…

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Cultura

Lucy

Acordo suada, ofegante, destruída, parece que corri a São Silvestre sem a devida preparação

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Acordo suada, ofegante, destruída, parece que corri a São Silvestre sem a devida preparação. Passa um pouco das 3 da manhã e essa já é a terceira noite que isso me acontece… queria levantar, mas o medo me impele a ficar deitada na “segurança” da minha cama, e eu me pergunto: medo de quê? Não há o que temer. Isso já está me prejudicando, preciso fazer algo a respeito… amanhã procuro um médico. 

Viro pro outro lado da cama na tentativa de dormir, mas em vão, os minutos passam, as horas se arrastam e não consigo dormir. O despertador toca… agora tenho que levantar e ir trabalhar, não sinto mais medo, mas como disse anteriormente teria medo de quê?

Vamos Susana, levanta menina, mais um dia de trabalho. O dia demora imenso a passar e o cansaço das noites mal dormidas minam o meu corpo… ufa acabou o dia. Droga, esqueci de procurar um médico.

Chego em casa e Lucy (minha felina) me recebe sem muita animação, apenas um leve olhar desinteressado. Tento conseguir alguma atenção dela, mas sem sucesso. Os gatos são assim mesmo, não posso fazer muita coisa a respeito. Abro a geladeira lá está ela, minha cevada, abro-a e dou um grande gole, que coisa boa depois de um dia interminável de trabalho. Tomo um banho, coloco a camisola, esquento o resto da pizza de ontem e vou finalizar um trabalho. Pronto, hora de dormir. Lucy já está acomodada na cama, bem no meio da cama, ela se acha a dona de tudo. Os gatos são notívagos e Lucy naturalmente não vai dormir agora, mas os felinos gostam de estar próximos aos seus donos para protegê-los e esse comportamento é uma forma de mostrar afeição pelo seu humano, então Lucy sempre fica onde eu estou. Espero ter finalmente uma noite tranquila de sono hoje.

Novamente acordo por volta das 3 horas da manhã, mas desta vez não consigo me mexer, pareço estar “pregada” na cama. O led verde do ar-condicionado ilumina o quarto, percebo então um vulto embaixo dele, não há uma forma definida, é algo como se fosse uma sombra. Tento me mexer, gritar e nada, não consigo. Sinto uma presença próxima a mim, não sei explicar. Sinto frio, muito frio, não sei porque, mas estou sem as cobertas. Agora a presença parece mais próxima e começo a sentir sua respiração, porém não vejo nada e pior de tudo, não consigo me mexer, estou totalmente paralisada.

O vulto junto ao ar-condicionado parece aproximar-se, está cada vez mais perto, agora assemelha-se a uma barata, uma barata gigante vindo em minha direção. Nesse momento sinto algo subir em minhas pernas, como se fossem perninhas andando em mim, subindo e subindo, são pegajosas, meladas, frias, a sensação de nojo e terror estão me sufocando. Agora estão na altura da minha coxa, a velocidade é menor, mas continua subindo, ouço um sussurrar, tento virar a cabeça para ver o que é, mas não consigo. A barata gigante agora se debruça na cama, e vem em minha direção, ela abre as asas parece querer me abraçar, me envolver, uma gosma cai em cima de mim e as perninhas já estão na altura da minha cintura… Meu Deus! Não consigo me mexer. Minha pulsação está acelerada, sinto que vou desmaiar a qualquer instante, tento empurrar meu corpo para trás para me enterrar na cama e afastar aquele blatídeo de mim, contudo sem sucesso, meu Deus…

Finalmente consigo me mexer, mas não consigo gritar, imediatamente passo a mão na barriga em direção as pernas para tirar de cima de mim seja lá o que for que sobe pelo meu corpo, mas não consigo sentir nada, cato o celular embaixo do travesseiro e acendo a lanterna, olho para as minhas pernas, nada, nem um sinal de nada nojento que sentira antes, o inseto gigante também sumira sem deixar vestígios. Cubro-me por completo e tento me acalmar, estou ofegante, aterrorizada e nem arrisco sair debaixo das cobertas. Algo passa pelo meu pé, dou um grito, de um pulo só saio correndo e me tranco no banheiro do quarto. 

Silêncio total, não ouço nada, preciso ligar pra alguém, droga deixei o celular no quarto. Encolho-me no canto do box e rezo pra “coisa” não vir atrás de mim e olha que faz muito tempo que perdera a minha fé. Uma vez mais não consigo me mexer, embora dessa vez eu possa. Lucy, esqueci da gata, o que devo fazer? Ir lá ou deixá-la à própria sorte? Após algum tempo, encho-me de coragem e tento levantar, minhas articulações estalam quebrando o silêncio e a dormência toma conta de minhas pernas. Arrasto-me até a porta que ao abrir range enchendo meu ser de apreensão, o que eu irei encontrar no quarto? A luz do banheiro ilumina o ambiente, não vejo nada de anormal no quarto. Sinto dedos passarem por minha perna. Tudo escurece, desmaio. 

Acordo com Lucy se esfregando em mim e tenho a impressão que ela falou em meus pensamentos, disse que tinha um recado da minha avó, ela dizia que minha casa estava tomada de espíritos obsessores e que estava lhe protegendo, mas disse para você mudar ainda hoje. Nossa, devo mesmo procurar um médico, as alucinações estão ficando macabras.

Após outro dia cansativo no trabalho chego em casa e Lucy me espera na porta. Você deve mudar hoje, murmura em minha cabeça a voz da gata. Olho para ela e silêncio, ela está no modo de não querer ser incomodada.

Pontualmente, às três horas, noite após noite tenho visões cada vez mais aterrorizantes, já fui a vários médicos, psicólogos e outros especialistas, contudo ainda não conseguiram resolver o meu problema.

Já faz seis meses da primeira visão e agora Lucy não para de falar na minha mente, às vezes é bom “ouvir” o que ela tem dizer, já parou com essa história de obsessores e me trata de forma meiga e carinhosa, mas não é normal, um gato não fala, temo estar ficando louca.

Através do circuito interno de TV, um grupo de residentes em psiquiatria observa Susana conversando com um gato, Dr. Rui explica que ela sofreu um abalo emocional muito grande com a morte da avó e em pouco tempo após a partida da avó ela definhou e foi encontrada desmaiada em seu quarto. Desde então sisma que esse gato fala com ela e passa a maior parte do dia deitada olhando para o teto, às vezes parece fugir de algo, fica acuada na cama, olhos petrificados, são alucinações, assim como as conversas com o felino. 

Vamos a outro paciente agora…

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